Sobre o Sentido da Vida e Morte das Religiões

Uma vez escrevi que “a vida e morte das religiões fazem parte do mundo, e ser religioso significa entender isto.” As religiões “abraâmicas” se encaixam naquela categoria de “religiões de Kali Yuga” no sentido em que são religiões com consciência histórica (e Kali Yuga é acima de tudo a Era da consciência histórica). Jamais houve algo assim. São religiões que, por assim dizer, se revelam continuamente no desdobramento da história; seus adeptos, por um lado, assumem que a religião sempre esteve pronta, perfeita, no momento da Criação, no início dos tempos, na “pré-existência” (pois sem Religião não haveria Criação, inclusive); porém, assumem que a posição do homem é, para falar segundo o Zohar, aquela da tarde do Sexto Dia: cabe ao homem completar o universo, completar a Criação, levá-la triunfalmente ao Sétimo Dia; completar a saga das Religiões, levá-las ao acabamento, de volta à perfeição. A existência na história é isto: e é por isto que, desde que o homem deixou a morada do *mito* e passou a viver *na história*, os mais atentos souberam enxergar esta Era como um poente, um caminho descendente do Sol em direção à noite, ventre de um novo Dia: a decadência, o descenso, o próprio “Ocidente”, carregam este significado.

Seja como for, as religiões de consciência histórica são conformes à Era, a esta Era. Os Profetas olham ao seu redor e enxergam povos ruindo, religiões estrebuchando, seitas nascendo, definhando e morrendo; ídolos se esvaziando de “pneuma”, tornando-se ocos. Ora, a sucessão das religiões tem uma razão de ser (ou uma razão de Ser). A Religião dos Profetas absorve este fenômeno e o resolve filosófica, teológica e espiritualmente. O Islam, por exemplo, é taxativo. No Alcorão há um versículo que só poderia ser dito por uma religião de consciência histórica (a última revelada, aliás): “Cada povo tem seu destino e, quando este se cumprir, não poderá atrasá-lo nem adiantá-lo numa só hora.” (Surata Yunus, 49). Traduzindo: cada povo tem um prazo de existência, e o Destino é implacável. Até o próprio “povo” muçulmano (tal como existe) teria um “prazo de existência”, segundo algumas leituras.

A relação entre as religiões abraâmicas e a consciência histórica (sem descuidar de outro elemento, a filosofia grega, pois a consciência histórica é resultado da soma deste encontro e simbiose) é tão notável que até caberia perguntar se elas é que “se encontram na história” ou se a Revelação é que constrói para o planeta uma habitação histórica.

A profundidade disto tudo coloca em xeque, a meu ver, esperanças estapafúrdias de “revivacionismo pagão” (o qual tem, contudo, a mesma eficácia que o Ocultismo, ou seja, como campo de experimentação ou laboratório espiritual no âmbito privado). Para não falar daqueles que afirmam: “não há bem e mal, é tudo jogo da ilusão, a verdade está além da oposição”; e em seguida dizem que “as religiões abraâmicas são o mal”.

Também deveriam atentar-se a isto os que defendem um retorno a religiões pré-abraâmicas por parte de grandes sociedades inteiras. Já falei aqui do exemplo do Irã. Os que defendem um retorno ao Zoroastrismo são quase tão ateus em segredo quanto os próprios ocidentais: é ateu pensar que as religiões possam ser “reconstruídas” pelo esforço do homem e apenas do homem. As estruturas da antiga religião persa estão vivas no Islam (xiita). Saoschyant apenas “virou” Mahdi. Querer destruir o Islam iraniano para retornar a um Zoroastrismo (exceto nos bolsões em que este ainda pulsa, e isto deve ser respeitado) resultaria num Zoroastrismo apenas de fachada e ineficaz, encenação nacionalista sem transcendência.

Seja como for, há razões para tudo: “a vida e morte das religiões fazem parte do mundo, e ser religioso significa entender isto.”

Sociólogo de formação; Pesquisador de Antropologia, Metapolítica, Metafísica Tradicional e Tradição Perene

Sociólogo de formação; Pesquisador de Antropologia, Metapolítica, Metafísica Tradicional e Tradição Perene